Tecnologia

23 anos de Google: o domínio da Internet que começou num simples motor de busca

Como um mero projeto universitário se tornou no mais importante pilar da internet em apenas 23 anos.

Eduardo Silva
29 de Set de 2021
9 minutos de leitura

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Se sabes o que é a Internet, quase de certeza sabes o que é o Google. Aliás, as duas palavras quase se confundem para muitos, tal é a dependência da população daquele que é o motor de busca mais utilizado em todo o mundo, por larga margem.

Parece quase inofensiva a forma como o motor de busca atua. Ao abrirmos um browser, é quase certo que a palavra Google será a primeira coisa a vemos quando pretendemos pesquisar algo. Para alguns, este serviço poderá também estar associado ao seu email, com o Gmail, ou ao serviço de GPS do telemóvel, com o Google Maps.

Na ótica das empresas, a Google é uma parceira de peso para atingir o sucesso através da Internet. Afinal, sendo este o motor de busca que domina as pesquisas online, é a própria Google que pode tomar as lides da publicidade das empresas nesse mesmo motor de busca que lhe pertence. Se para as empresas é importante direcionar as pesquisas para o seu website, para a Google é importante aproveitar esta intenção das empresas para gerar mais rendimentos tanto com a promoção destas empresas no motor de busca, como na promoção dos websites certos através das Google Ads.

Mas de onde apareceu o Google? Porque está este nome tão presente na tecnologia? A data de nascimento da empresa está associada ao dia 4 de setembro de 1998, altura em que foi constituída. No entanto, o seu projeto precede esta data, com o projeto de um estudante por detrás de todo este sucesso.

A ideia de Larry Page e o projeto BackRub

Poderá ser desconhecido para a maioria, mas a gigante tecnológica conhecida como Google já teve outro nome. Em agosto de 1996, o projeto BackRub foi levado a cabo na Universidade de Stanford pelos então estudantes de doutoramento Larry Page e Sergey Brin e baseava-se na aplicação prática de uma ideia de Larry Page de desenvolver um algoritmo capaz de classificar websites conforme a quantidade de citações que os mesmos recebiam.

Este algoritmo, chamado PageRank, era uma forma automatizada de organizar os diversos websites na internet e fazia-o com base na quantidade de links citados e também na qualidade desses links. O motor de busca, tal como acima mencionado, recebeu o nome BackRub e no seu primeiro ano de existência correu apenas nos servidores da Universidade de Stanford, antes de todo o seu potencial ser explorado.

A Universidade de Stanford foi também berço para um motor de busca que dominava, à data, as pesquisas na internet. O Yahoo era o motor de busca mais utilizado na internet no final dos anos 90 e também havia sido fundado naquela universidade. Ao contrário do sistema BackRub, a classificação dos websites era feita manualmente por programadores. Nesta altura, poucos acreditavam no potencial do sistema de Larry Page e Sergey Brin, já que dificilmente um algoritmo conseguiria fazer um trabalho organizacional tão competente como uma equipa de programadores. No entanto, com o crescente número de websites a serem listados e a qualidade do trabalho de Page e Brin, a própria Yahoo foi obrigada a reconhecer que o motor de busca concorrente era, de facto, superior.

A fundação da Google

Após apurarem o potencial do seu trabalho, Larry Page e Sergey Brin tomaram este como um projeto sério e optaram por mudar a sua denominação. "Google" foi o nome escolhido, em referência a um googol (número 1 seguido de 100 zeros), tendo o par registado o website google.com em 17 de setembro de 1997.

Apesar de estar registado o website, a dupla esperou quase um ano para que em 4 de setembro de 1998 fosse finalmente constituída a empresa com o mesmo nome, sendo esta a data reconhecida como a da fundação da Google como a conhecemos hoje.

Os anos que se seguiram ao lançamento do motor de pesquisa foram de sucesso exponencial. Esse crescimento rapidamente atraiu as atenções do maior rival no mercado, o Yahoo, que apesar de continuar a possuir uma fatia de mercado muito superior à da Google em 2000, tornou-se claro para os seus representantes que o ritmo de crescimento da nova rival se devia à diferença de qualidade dos seus sistemas de pesquisa, sendo que seria apenas uma questão de tempo até a Yahoo ser finalmente ultrapassada.

Nesse sentido, a 26 de junho de 2000, a Yahoo anunciou que passaria a utilizar o motor de busca da Google, numa parceria que daria o tempo suficiente à empresa para desenvolver um motor de busca superior capaz de rivalizar com o sistema de Page e Brin.

As pretensões corporativas da Yahoo não se ficaram por uma simples parceria. Em 2002, o seu CEO Terry Semel propôs a aquisição da Google por uns impressionantes 3 mil milhões de dólares, numa altura onde a Google tinha um valor de mercado de apenas 240 milhões de dólares e a própria Yahoo apenas ascendia aos 837 milhões. Esta proposta foi recusada por Larry Page e Sergey Brin, uma decisão que se viria a revelar acertada nos anos que se seguiram.

Da criação do Gmail e Google Maps à melhor aquisição de sempre: o Android

A partir da recusa de uma proposta multimilionária, o crescimento da Google no mercado continuou a surpreender tudo e todos. Em abril de 2004, foi feita a Oferta Pública Inicial, com a empresa a tornar-se pública e atingir uma valoração de 27 mil milhões de dólares.

O rápido crescimento da Google levou a que novas metas fossem definidas, assim como a expansão dos serviços oferecidos. No dia 1 de abril de 2004 (dia das mentiras), a Google lançou o Gmail, serviço de correio eletrónico que veio rivalizar com os serviços da Microsoft e da Yahoo e que, devido à data em que foi anunciado, muitos pensavam tratar-se de uma piada.

Na verdade, o Gmail era uma aposta séria e a sua oferta inicial de 1GB de armazenamento total gratuito para emails, que esmagou por completo as restantes propostas de mercado e deixou os concorrentes sem uma resposta adequada (a resposta da Yahoo foi a oferta de 100Mb de armazenamento gratuito, que se revelou insuficiente para convencer a clientela).

Outro serviço que hoje damos por garantido mas que nasceu nesta altura em que a Google ia ganhando momentum, foi o Google Maps. O serviço de navegação mais conhecido do mundo surgiu em fevereiro de 2005 numa versão exclusiva para computadores.

Apesar de lançado em 2005, apenas com a popularização dos smartphones foi possível ao Google Maps tornar-se numa ferramenta de navegação essencial, tal como a conhecemos hoje.

E por falar em smartphones, 2005 foi também o ano em que a Google adquiriu o Android. O agora sistema operativo mais utilizado no mundo teve origem numa empresa chamada "Android, Inc.", adquirida pela Google em julho de 2005, que se dedicava ao desenvolvimento de software para dispositivos móveis. À data da aquisição, David Lawee, vice presidente para o Desenvolvimento Corporativo da Google, afirmou que esta teria sido o "melhor negócio de sempre". Volvidos 16 anos, ninguém questionará o executivo.

Numa altura em que a Google havia já deixado para traz o motor de busca da Yahoo, todas as condições estavam reunidas para que a aquisição de projetos promissores como o Android fosse continuar. E assim foi, com a aquisição do YouTube em 2006, passando a possuir a maior plataforma de vídeo do mundo, e a DoubleClick em 2007, a empresa responsável pelos famosos cookies, responsáveis por adaptarem o tipo de publicidade reproduzida perante cada utilizador.

A aventura no mercado mobile

Em setembro de 2008, o primeiro smartphone Android chegou ao mercado. O HTC One deu o primeiro passo para a conquista do mercado mobile por parte da Google através do Android. Este sistema operativo open source foi (e ainda é) uma das principais formas de divulgar e promover a utilização de todos os serviços Google, desde o Google Maps, Youtube, Ads, Gmail e muitos mais.

A forma como este sistema se afigurava ideal para que as empresas o integrassem nos seus dispositivos surgiu na altura certa, de forma a concorrer com a nova proposta de smartphone da Apple: o iPhone. E muito graças ao iPhone e ao iOS, também o Android cresceu exponencialmente, sendo o escolhido para integrar os sistemas que viriam a rivalizar com a proposta da empresa fundada por Steve Jobs.

Desde cedo, a Google quis ter uma palavra a dizer no mercado. Para além do próprio sistema operativo, que inúmeras vezes foi moldado pelas várias empresas com as suas interfaces (melhores exemplos disso são a Samsung e a Huawei), a Google pretendia trazer ao utilizador uma experiência própria e que acabasse por tirar melhor partido também dos serviços Google, para os quais o Android estava mais do que adaptado.

Assim, algumas colaborações surgiram desde cedo com as fabricantes. Os casos mais celebres deram origem à linha Nexus, uma linha de smartphones e tablets que começou por aparecer em 2010 com o HTC Nexus One, que veio a ser sucedido, entre outros, pelo Samsung Galaxy Nexus, LG Nexus 4, 5 e 5X, Motorola Nexus 6 e Huawei Nexus 6P.

O LG Nexus 5 foi um dos mais emblemáticos smartphones da linha Nexus - Imagem: AppTuts.net

No entanto, o projeto Nexus padecia de alguns defeitos. Enquanto a Google era maioritariamente responsável pela integração do software (que era do agrado do seu nicho de utilizadores), o hardware estava dependente do que cada marca entendia e ia de encontro não à linha Nexus, mas sim à oferta de cada uma dessas marcas, o que retirava qualquer tipo de coesão a nível estético e funcional.

E daqui, surgiu uma nova proposta da Google. A primeira geração Google Pixel surgiu em outubro 2016 e tornou-se a referência do mercado mobile para os puristas Android. Todos os anos, a Google faz experiências com os seus dispositivos, mas uma coisa é certa: se alguém pretende obter a experiência Android mais pura e de acordo com o que a Google entende que deve ser o seu sistema operativo, a escolha certa deverá ser optar por um smartphone Pixel.

Em 2021, a dupla Google Pixel 6 e Pixel 6 Pro será revelada ao mundo e traz uma nova área a explorar pela Google: os processadores. O Google Tensor será o primeiro system-on-chip da empresa norte-americana e será adaptado exclusivamente aos novos Pixel 6 e 6 Pro, podendo mesmo revolucionar algumas áreas, especialmente no que respeita à fotografia e à inteligência artificial.

Um novo nome e um mar de trajetos a seguir

Atualmente, o domínio dos serviços Google é inquestionável. O Google Search é o motor de busca mais utilizado do mundo (87% dos computadores e 94% dos dispositivos móveis utilizam o Google Search por defeito) e, com a  exceção da China, onde o governo local impede a sua utilização, o inquestionável domínio da Google prevê-se continuar por longos anos.

Em 2015, Larry Page e Sergey Brin reestruturaram a empresa-mãe, que passou a seguir-se pelo nome Alphabet, Inc., incorporando não só a Google, como todas as grandes empresas que pertencem a este grupo. Segundo os cofundadores, esta foi a forma de manter uma maior independência entre a empresa que deu origem ao grupo e os restantes serviços.

A aposta na aquisição de start-ups de enorme potencial continua firme no seio da Alphabet, Inc., com um grande foco na automatização, inteligência artificial e na realidade virtual e aumentada. O domínio da Google e da sua empresa mãe continua fazer os vários governos (especialmente o dos Estados Unidos da América) levantarem questões sobre o poder que é dado a uma só empresa.

Depois da Comissão Europeia e da Austrália terem investigado as práticas da Google no que respeita à gestão de dados dos utilizadores, os EUA foram mais longe ao proporem ações judiciais, acusando a Google de deliberadamente utilizar estratégias para impedir a concorrência de crescer e se poder afirmar.

Certo é que, atualmente, dificilmente uma empresa consegue competir com a Google. A própria Apple, que através de dispositivos como o iPhone, iPad e MacBook tenta incutir à sua fiel base de fãs os seus próprios serviços, tem encontrado dificuldades em impor-se perante o excelente trabalho da Google, sendo o melhor exemplo disso a dificuldade do Apple Maps em ombrear com o Google Maps.

Depois de 23 anos de sucessos, será interessante perceber no que a Google (agora, Alphabet), se tornará. O futuro é promissor, mas poderá esta mega-empresa, que começou como um mero projeto universitário, tornar-se no overlord que os filmes sci-fi tantas vezes previram? Apenas o futuro o dirá...

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