Crónica

A confusão da comissão

Cronica semanal, todos os sábados, às 12h.

Marcus Mendes
11 de Dez de 2021
4 minutos de leitura
brian,
tive uma ideia para ganharmos um dinheirinho – transformar o nosso apartamento num “bed & breakfast para designers” – oferecendo um lugar de hospedagem para os jovens designers que vierem à cidade durante os 4 dias de evento, completo com wi-fi, um lugarzinho para trabalhar, um colchão, e pequeno almoço todos os dias. Ha!
joe

E assim, no dia 22 de setembro de 2007, nascia o Airbnb. Aliás, mais do que apenas o Airbnb, assim nascia o modelo de negócio que redefiniria a economia digital. De certa forma, assim nascia também a Uber, a Glovo, e tantas outras empresas com avaliações bilionárias que seguem o modelo de conectar oferta e demanda sem ter posse de nada, e ficar com uma comissão em contrapartida. Por muito tempo, o Airbnb foi chamado de “a maior rede de hotéis do mundo que não é dona de nenhum quarto”, e a Uber “a maior frota de carros do mundo que não é dona de nenhum veículo”. E assim por diante.

É claro que mesmo em 2007, isso não era algo absolutamente novo. Afinal, um shopping center, por exemplo, nada mais é do que um lugar que centraliza demanda e oferta, cobrando o aluguer das lojas e rentabilizando a operação em cima dos clientes. A mesma coisa se aplica para supermercados, lojas de departamentos e, talvez, lojas de aplicações como a Play Store e App Store.

Nos últimos anos, muito tem se falado (de forma justificadíssima) sobre o quão apropriada é a cobrança de 15%/30% de comissão nas vendas de aplicações e de assinaturas na Play Store e na App Store. Mais recentemente, é claro, este assunto virou uma guerra termonuclear entre a Epic Games e a Apple (e também o Google) depois que a Epic provocou a própria expulsão das lojas de apps apenas para ter um candidato a base legal para processá-las. Isso, por sua vez, provocou um efeito cascata que deu início (ou mais peso) para investigações de práticas anticompetitivas no mundo todo. Japão, Coreia do Sul, Austrália, Rússia e, é claro, Estados Unidos são apenas alguns exemplos disso.

Especificamente no caso Apple vs. Epic nos EUA, a Apple saiu relativamente vitoriosa. Das aproximadamente 10 acusações feitas pela Epic, a Apple foi inocentada de todas, exceto por uma. Mas uma muito importante: a juíza do caso decidiu que a Apple age de forma injusta com a operação da App Store, e por isso ela terá que passar a permitir compras internas por fora do sistema da App Store. Esta ordem deveria ter entrado em vigor na última quinta-feira, dia 9 de dezembro, mas a Apple conseguiu convencer uma ordem superior de justiça a adiar essa mudança até a decisão final do processo da Epic, o que pode levar alguns anos.

Ainda assim, um comentário da juíza deste caso parece resumir muito bem a situação em que a Apple (e o Google é claro) se encontra: durante o processo, a Apple não conseguiu justificar a necessidade de cobrar até 30% de comissão para manter a rentabilidade operacional da App Store. Trocando em miúdos, a juíza disse basicamente “Quer cobrar? Que cobre! Mas cobre menos”.

A culpa disso é da própria Apple. Durante todo o processo (e em todos os outros também), ela tentou comprovar matematicamente a necessidade de cobrar até 30% de comissão. Citou salários, citou manutenção de servidores, citou até a WWDC presencial como uma fonte enorme de gastos (ignorando o facto dos bilhetes custarem US$ 1.600)… enfim. Ao elencar todos os motivos pelos quais a cobrança de até 30% de comissão é justa, a Apple deixou a operação da App Store inteira vulnerável a um contra-argumento que pode muito bem ser feito em uma planilha de Excel. Ou de Numbers.

Agora, deixemos este caso de lado por um momento, e pensemos no que o Google fez na Coreia do Sul, em resposta à determinação do governo de que a Play Store (e a App Store) deverão começar a aceitar pagamentos por fora dos próprios sistemas. O Google disse que irá cumprir com essa determinação, mas ainda assim as compras internas serão taxadas em 11%, ao invés dos costumeiros 15%/30%. Já a Apple, enquanto luta publicamente para não ter que fazer essa mudança, vem se preparando nos bastidores para adotar uma postura parecida com o Google, cobrando uma comissão (ainda não estipulada) para compras feitas por fora do sistema da App Store.

À primeira vista, essa cobrança de comissão mesmo pelas compras por fora da Play Store e da App Store podem parecer um abuso, mas vejo diferente. Acabo por ver essa situação exatamente da mesma forma que o Airbnb, a Uber e tantas outras empresas operam hoje em dia, ligando demanda e oferta, e ficando com uma compensação financeira como resultado dessa possibilidade. Hoje em dia, um desenvolvedor precisa, necessariamente, do Android e do iPhone para colocar uma aplicação na mão do cliente. É claro que isso abre espaço para a discussão do quão certo é existir esse duopólio, mas facto é que neste momento, esta é a realidade. E a menos que a Epic, por exemplo, consiga criar um telefone tão atraente, com um sistema operacional próprio, a ponto de tornar-se um concorrente de peso frente ao iOS e ao Android, parece-me justíssimo que ela tenha de pagar uma comissão para as empresas que abrem esta possibilidade para ela. É justo que esse valor seja 11%? Não sei.

Mas definitivamente não me parece justo que ele seja 0%.

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