Crónica

Adeus, @fundador. Olá, @futuro!

Cronica semanal, todos os sábados, às 12h.

Marcus Mendes
4 de Dez de 2021
4 minutos de leitura

Eu tenho uma certa fascinação pela história do Twitter. Esta empresa é uma fonte infinita de dualidades e de contradições que, inexplicavelmente, deu (quase) certo. Mas não foi à primeira, é claro.

Nem toda a gente sabe, mas o Twitter começou como uma empresa de podcasts chamada Odeo. Aliás, é curiosa a quantidade de grandes empresas que começaram como outra coisa. O finado Flickr começou como uma startup de games. O Slack, também. Mas voltemos à Odeo. Em uma reunião interna, Jack Dorsey (que ainda era um universitário) sugeriu um serviço de publicação de mensagens curtas via SMS. Cortando algumas partes da história, alguns meses mais tarde, Dorsey e outros membros da Odeo (Evan Williams, Noah Glass e Biz Stone) fundaram o Twitter.

Ao longo dos anos que se seguiram, a empresa foi evoluindo na mesma medida em que sua governação corporativa foi ruindo. Jack Dorsey foi demitido de forma dramática do cargo de CEO e foi substituído por Evan Williams, anos mais tarde Williams foi substituído de forma igualmente dramática por Dick Costolo, depois Dorsey voltou ao comando também sob circunstâncias curiosas e agora, novamente, passou o cargo (de forma compulsória? ainda não sabemos) para o relativamente desconhecido Parag Agrawal.

No meio disto tudo, o Twitter estabeleceu-se como a principal fonte de notícias em tempo real do mundo. Mais do que isso, tornou-se numa poderosa ferramenta política, uma utilíssima ferramenta sócio-cultural e, como não poderia deixar de ser, uma terrível arma nas mãos de quem o utiliza com a malícia que as regras do site ainda permitem que aconteça.

Já uma coisa que o Twitter nunca conseguiu foi tornar-se verdadeiramente rentável. Na verdade, o crescimento também parou há alguns anos. Foi por isso, inclusive, que eles pararam de reportar a quantidade de utilizadores ativos aos investidores, e passaram a reportar a quantidade de utilizadores ativos que eles conseguem “monetizar” com as parcas iniciativas publicitárias que eles seguem tentando vender.

Quem trabalha no Twitter atribui isso, em última instância, a Jack Dorsey. Historicamente lento para tomar decisões, Dorsey sempre passou mais tempo preocupado em projetar a imagem de um genial messias 2.0, do que em de facto liderar a empresa. O resultado disso é o que os utilizadores mais ferrenhos do Twitter puderam observar ao longo dos 15 anos de desenvolvimento da empresa: não muita coisa. Tirando a troca de 120 para 240 caracteres como limite de publicação, tirando compras que não deram em nada como a das plataformas Periscope e Vine, o Twitter só passou a investigar funções realmente novas recentemente. Fleets, Spaces, Twitter Blue, projeto Bluesky e o interesse em NFTs/crypto são alguns exemplos disso. Nenhum deu muito certo ainda (e os Fleets acabaram de ser descontinuados), mas pelo menos agora o Twitter parece estar a tentar fazer algo.

Mas voltando a Dorsey, observadores mais atentos aos pormenores da operação do Twitter não se podem dizer realmente chocados com a sua saída. No ano passado, após uma pressão enorme de um grupo importante de investidores, o Twitter colocou o cargo de Dorsey em cheque, e atrelou-o a diversas métricas de crescimento que não se tornaram realidade. Ao mesmo tempo, Dorsey nunca soube administrar bem a própria atenção, dividida entre o cargo de CEO do Twitter e o cargo de CEO da Square (que em breve passará a chamar-se Block). De quebra, o próprio Dorsey já demonstrava uma certa falta de interesse em manter-se ativo no dia a dia do Twitter, tendo anunciado que se mudaria para a África pouco antes da pandemia o obrigar a mudar de planos e continuar a trabalhar na Califórnia.

E para alguém que já não parecia ter muito interesse em liderar uma empresa (ou duas), que dirá ser convocado constantemente pelo governo americano para prestar depoimentos? Cada vez que Jack Dorsey aparecia com sua barbicha comprida, o seu piercing no nariz e a sua atitude minuciosamente casual frente aos políticos americanos, ficava ainda mais claro que o seu coração já não estava mais no Twitter. Suspeito que por motivos parecidos, Jeff Bezos tenha deixado o cargo de CEO da Amazon recentemente, mas este é um assunto para um outro momento.

A saída de Jack Dorsey do cargo de CEO do Twitter simboliza um momento importantíssimo da história não só do Twitter, mas de todo o mercado de redes sociais. Ao passar a ser liderada, pela primeira vez, sem nenhum dos seus fundadores, a empresa finalmente entra num território inexplorado em que a própria evolução será a única alternativa. Um não-fundador no cargo de CEO trabalha com menos pressão, e sem o apego a ideias antigas que possam ter passado do prazo de validade. E a escolha de um engenheiro de software para liderar o Twitter é um bem-vindo sinal de que eles ainda estão mais interessados em evoluir o produto Twitter, do que ceder às pressões dos investidores que querem que ele se torne mais um Facebook. O mundo não precisa de mais um Facebook. Para isso, já existe um Facebook. O que o Twitter precisa fazer é  comprometer-se com a ideia de que terá, sim, que mudar, possivelmente alienando alguns utilizadores ou grupos de investidores, mas que do outro lado dessa estrada há uma bonança que há tempos já tem o seu nome.

Quanto a Jack Dorsey, nesta semana, conseguiu um feito inédito: ao mesmo tempo que o seu anúncio de demissão surpreendeu a todos, ele também não surpreendeu ninguém. E não há nada mais Jack Dorsey (ou Twitter) do que isso.

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