Ciência

Como a COVID-19 afeta o cérebro

Diogo Simões
3 de Set de 2021
6 minutos de leitura
Photo by Vladimir Fedotov / Unsplash

Índice

Se há três anos nos dissessem que iríamos enfrentar uma pandemia, muito provavelmente não acreditaríamos. E, por mais que diversos sinais e indicadores estivessem presentes no quotidiano, ao ponto de gerar alguns documentários, ninguém estava verdadeiramente preparado para o SARS-CoV-2. O que também pouco sabíamos, e começamos agora a ter consciência, é de que forma este vírus afeta o cérebro e de como alguns dos resultados obtidos podem ser, realmente, alarmantes.

Os primeiros sintomas

Para um vírus que causou, pelos dados, mais casos de febre, diarreia ou perda do paladar, foram e são diversas as pessoas que sentiram como primeiros sinais de infeção uma sensação de confusão por, e como documenta a National Geographic, não conseguir ler uma simples mensagem de texto. Algo que antecede a dores de cabeça intensas e uma maior incapacidade de atenção e retenção de informação.

Na verdade, e enquanto estes sintomas não parecem ter sido documentados, segundo uma estimativa do National Institudes of Health, 30% de pessoas infetadas sofreram algum tipo de sintoma neurológico ou psiquiátrico. Mas o que preocupou, e continua a preocupar os investigadores, é como estes sintomas podem durar semanas ou meses após a contração da infeção.

simulated covid-19 patients in the ICU room of one of the Central Java hospitals

*) Gambar Pasien adalah model, bukan pasien yg sebenarnya. karena ini saat simulasi penanganan covid-19
Photo by Mufid Majnun / Unsplash

Como nos reporta a investigação da National Geopgraphic (e referentes aos dados maioritariamente dos EUA), muitos dos pacientes que eram internados nos hospitais sofreram sintomas persistentes de problemas cognitivos ou de "névoa cerebral". Pelo constatado, muitos dos utentes que não precisaram de internamento têm problemas frequentes.

Estas constatações levaram a estudos, alguns já certificados e publicados, de como pessoas com COVID-19 apresentam problemas neurológicos cuja recuperação não está ainda clara. Na verdade, muitos destes utentes, ao fim de um ano, só conseguem trabalhar ao fim de umas horas por dia e ao ponto de alguns utentes terem sido diagnosticados com disautonomia pós-viral que, segundo explica a publicação da National Geographic, é um distúrbio que ocorre ao nível do sistema nervoso e causa tonturas, taquicardias e períodos de respiração acelerada.

Já foram feitos testes cognitivos

Há oportunidades que aparecem por acaso e, quando elementos do Imperial College London se preparavam para realizar um estudo para compreender a forma como a capacidade cognitiva varia dentro de uma população, estes rapidamente adaptaram, com a ajuda da BBC, o teste para albergar dados de pacientes com COVID-19.

Com mais de 81 mil participantes, perto de 13 mil pessoas relataram ter estado infetadas e, dentro destes resultados, era notório como muitas destas pessoas estavam com problemas cognitivos quando comparado a um grupo que não contraiu a infeção SARS-CoV-2. Segundo Hampshire,

“On the worst extreme of the spectrum, people who had gone to hospital and been put onto a ventilator showed the largest underperformance cognitively speaking"
"os doentes internados e colocados em ventiladores apresentavam a maior ineficiência na cognição, nomeadamente o raciocínio, resolução de problemas e de capacidade de planeamento".

Resumidamente, e de acordo com os dados publicados a 22 de julho, é um declínio que coincide com um envelhecimento de 10 anos!

A despistagem

Photo captured during office hours of a company in Brazil.
Photo by Lucas Vasques / Unsplash

Algo que não se pode esquecer e de que é de extrema importância é como doentes internados em unidades de cuidados continuados sofrem problemas cognitivos duradouros, sendo que um terço dos pacientes com insuficiência respiratória aguda apresenta sintomas que se assemelham a uma lesão cerebral traumática.  Tal deve-se aos sedativos que diminuem a atividade cerebral e causam ou confusão, delírio ou desorientação.

Porém, pelos dados desta despistagem de conhecimento médico geral, os efeitos da sedação não se conseguem fazer valer em todos os casos, pois muitos doentes que contraíram o vírus não necessitaram de ventiladores e, mesmo assim, têm enfrentado problemas neurológicos e cognitivos.

Mais estudos

Photo by Mat Napo / Unsplash

Publicado a 15 de julho, um estudo de triagem constatou que de 382 pacientes, 50% destes tinha a sua cognição afetada e uma diminuição na realização de atividades diárias. Atividades que vão desde o caminhar até ao cuidado próprio. Estes dados revelaram que tais sintomas permanecem mesmo após seis meses da alta hospitalar, sendo que 47% destes não conseguiram sequer retomar a atividade profissional.

Os investigadores constataram ainda que um conjunto da população-alvo do estudo, e que não tinha qualquer histórico de problemas neurológicos, tiveram derrames e convulsões enquanto estavam em ambiente hospitalar. Compreenderam ainda que indivíduos com histórico de problemas neurológicos têm um maior risco de desenvolver novas complicações quando internados com COVID-19.

Outras constatações

simulated covid-19 patients are in the ICU room


*) Gambar Pasien adalah model, bukan pasien yg sebenarnya. karena ini saat simulasi penanganan covid-19
Photo by Mufid Majnun / Unsplash

Desta pesquisa, realizada no Reino Unido, dos pacientes não hospitalizadas também estes revelaram défices cognitivos que, mesmo assim, não se revelaram tão graves quando comparado a pacientes internados. Outros estudos apontam ainda para problemas cognitivos àqueles que manifestaram uma reação à COVID-19 quer leve, quer de impacto moderado.

Por um novo estudo, publicado a 15 de julho, descobriu-se que de um grupo de 3.800 pessoas que sofreram uma infeção prolongada por COVID-19, 85% relatou sentir "névoa cerebral", sendo que destas só 317 pessoas foram hospitalizadas.

Também em Chicago, no Northwestern Memorial Hospital, muitos dos pacientes com COVID-19 nunca foram hospitalizados, mas apresentavam sintomas neurológicos com uma duração superior a seis semanas, segundo nos diz o estudo publicado em março. Os resultados, na verdade, revelaram-se semelhantes aos sintomas e à maneira como a realização de tarefas cognitivas ficou comprometida.

A COVID-19 não é o único vírus a fazer isto!

Na verdade, vírus como o do Zika ou até o do simples herpes podem afetar diretamente o cérebro. Com este conhecimento em mente, os cientistas perguntaram-se até que ponto a COVID-19 poderia fazer o mesmo. Tal curiosidade levou a sondas pelo cérebro de pessoas falecidas por forma a encontrar alguma relação.

Porém, como estes estudos são mais pequenos por nem todas as pessoas doarem o seu cérebro à ciência, e apesar de haver alguns estudos, concluiu-se que não foram encontradas evidências de cargas virais ou proteínas do vírus nas amostras cerebrais.

Então o que se passa?

Os cientistas chegaram a duas hipóteses que podem ajudar a explicar o porquê do vírus afetar a cognição.

A primeira, é a que o vírus pode desencadear uma inflamação no cérebro. Na verdade, e segundo o artigo, alguns infetados sofreram mesmo encefalite ou inchaço do cérebro. Fatores que podem causar confusão, dupla visão, ou até problemas na fala, audição e visão. Se não for tratado, podem desenvolver-se problemas cognitivos graves e que afetem diretamente as células cerebrais.

O que pode causar esta inflamação é uma resposta imune descontrolada e que acontece quando o nosso corpo luta contra uma doença/vírus/elemento estranho e liberta anticorpos contra a infeção. Como por vezes o sistema fica hiperativo na sua resposta, pode produzir anticorpos que se autoatacam. Na verdade, estes mesmo anticorpos foram encontrados no líquido cefalorraquidiano de pacientes com COVID-19.

A ball of energy with electricity beaming all over the place.
Photo by Halacious / Unsplash

Na procura de elementos que sustentem esta hipótese, e publicados na revista Nature, em junho, foram observadas mudanças moleculares no córtex cerebral — a parte do cérebro responsável pela tomada de decisões e memória. Estes desequilíbrios são os mesmos observados em pacientes com Alzheimer.

A segunda hipótese levantada é que o vírus pode restringir o fluxo de oxigénio e privá-lo do mesmo. Em pacientes com COVID-19 foram encontradas evidências de tecido cerebral danificado e causadas pela falta de oxigénio.

Tudo isto acaba por se interligar, na medida em que o corpo, sendo holístico, interage com todos os sistemas e um afeta sempre o outro.

O que nos diz isto tudo?

Doctor in a Moscow hospital
Photo by Vladimir Fedotov / Unsplash

Estes diferentes estudos permitem ajudar a perceber e perspetivar de que forma a COVID-19 afeta o cérebro humano e dos diferentes processos de cura e o que estão envolvidos neles.

Um outro estudo — que ainda está para ser aprovado —, correlaciona o vírus com biomarcadores sanguíneos, de neurodegeneração e de inflamação semelhantes àqueles que sofrem da doença de Alzheimer. Esta descoberta não implica a possibilidade de um doente infetado com COVID-19 contrair a doença de Alzheimer e importa detalhar e analisar os dados recolhidos antes de qualquer conclusão.

Apesar destes resultados, torna-se alarmante que milhões de pessoas, só nos EUA, estejam a sofrer com estes efeitos presentes em qualquer idade ou até condição de saúde.

Tudo isto realça o pouco que ainda conhecemos do SARS-CoV-2 e da forma como poderá afetar a vida, quero a curto, quer a longo prazo, de milhões de pessoas.

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