Crónica

Meio passo adiante ainda é um passo adiante

Crónica semanal de Tecnologia. Aos sábados, às 12h.

Marcus Mendes
2 de Out de 2021
3 minutos de leitura

Eu não sei quanto a vocês, mas confesso que estou um pouco cansado de todo o cinismo e o ceticismo que parte da imprensa especializada em tecnologia tem empregado reação a… bem, tudo. Um exemplo disso foi a uma das matérias de review do The Verge em reação aos novos iPhones. Lá pelas tantas, surgiu o já cansado questionamento que pode ser resumido da seguinte forma: “mas será que a Apple precisa mesmo lançar iPhones todos os anos? As melhorias foram tão tímidas, até mesmo nas câmaras!”.

Esse é um bumbo que confesso que me surpreende que ainda esteja a ser tocado não só em reação ao lançamento de cada iPhone nos últimos 4 ou 5 anos, mas também em reação a todo o mercado de smartphones. Confesso que já brinquei com o fato da Samsung ser incapaz de lançar menos do que um telefone novo por semana, mas é claro que dá para entender a estratégia. Além de brigar com a Apple, a Samsung briga (principalmente) com todos os outros fabricantes de dispositivos Android do mercado. Então ao inundar o mercado com as próprias opções, sobra menos espaço para a concorrência. É quase um SPAM de hardware, mas funciona.

O que eu não entendo é a lógica de “mas precisa lançar uma geração nova todo o ano?”. Claro que precisa! É bem verdade que o mercado de smartphones parou de evoluir a passos largos, como evoluía há 5 ou 6 anos. Mas é justamente por isso que um calendário anual (ou ao menos regular) de lançamento de atualizações é tão importante. Porque agora, todos os utilizadores de smartphones já estão acostumados a trocar de telefone a cada 2, 3, 4 anos, e aproveitam justamente a leva anual de atualizações de hardware para fazer o upgrade. Do ponto de vista de sustentabilidade financeira, é absolutamente essencial que as empresas continuem a lançar telefones todos os anos. É essencial COMPRAR telefones todos os anos? Obviamente que não. Mas lançar, sim.

Mas vamos lá. Suponhamos que num determinado ano a Apple ceda à ideia de pular um ano de lançamentos. Suponhamos que em 2022 não seja lançado nenhum iPhone novo, e apenas em 2023 venha a geração sucessora do iPhone 13. O que aconteceria? Bem, haveria um ano de vendas represadas. Isso significa que no dia do lançamento, a demanda pelo novo iPhone seria 2x a demanda normal de um lançamento (demanda essa que a Apple ano após ano ainda tem dificuldade de suprir, já que mesmo a fabricação de milhões de iPhones por dia não é mais suficiente para dar conta da procura entre o lançamento e o Natal). Consigo vislumbrar uma situação que seria parcíssima com o que está acontecendo hoje em dia com o PlayStation 5 e com os Xbox Series S e X. Após anos sem uma atualização de hardware, e após mais de 1 ano de lançamento dessas novas gerações, as consolas ainda estão em falta em boa parte do mundo. A própria Microsoft confirmou essa semana que não conseguirá normalizar os estoques antes do ano que vem.

É claro que os modelos de negócio são completamente diferentes, mas imagine um mundo em que a Microsoft e a Sony atualizam as suas consolas anualmente. Pequenas melhorias de processador, conectividade Bluetooth, incorporação de conectividade 5G, suporte a Dolby Vision, HDR, etc, etc, etc. Isso obviamente levaria a mais fragmentação, mas eu aposto que não haveria problemas de estoque como os que estão a acontecer hoje em dia.

“Ah, mas os problemas estão a acontecer por conta de imprevistos! A pandemia e a falta global de chips atrapalharam”. Verdade. E quem pode garantir que um ciclo bianual de lançamento de iPhones não enfrentaria esses, ou outros problemas, atrapalhando o suprimento da demanda da mesma forma?

Eu entendo o papel da imprensa especializada em questionar, e fazer seus leitores refletirem sobre consumismo, necessidade real de comprar novos aparelhos, e por aí vai. Mas apenas uma vez eu gostaria de ver essas questões serem apresentadas sem o obrigatório balde de água fria que é jogado na cabeça dos entusiastas de tecnologia com a aparentemente inocente pergunta “mas precisa disso?”.

A tecnologia (especialmente de smartphones) já não evolui mais na mesma medida em que ela costumava evoluir antes. Mas retratar qualquer avanço, por menor que seja, como potencialmente desnecessário é algo que ainda me confunde todos os anos a partir da segunda quinzena de setembro.

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