Crónica

O fim do passe livre

Crónica semanal de Tecnologia. Aos sábados, às 12h.

Marcus Mendes
28 de Ago de 2021
3 minutos de leitura

Quem acompanhou as notícias dos bastidores do mundo da tecnologia nos últimos anos, certamente viu as fotos em que CEOs como Tim Cook, Satya Nadella e Jeff Bezos apareceram sentados ao lado do então presidente americano, Donald Trump, em reuniões sediadas na Casa Branca.

Nestas oportunidades, era uma espécie de consenso velado a noção de que muitos daqueles eventos eram um grande teatro, com Trump a tentar aproveitar o nome dos CEOs para convencer o mundo da própria legitimidade, e projetar como efeito colateral uma posição de força na guerra comercial inventada contra a China.

Pois bem. A presidência dele terminou, a guerra fiscal contra a China está congelada em embates legais que ainda devem durar algum tempo (alô, Huawei), sendo que as reuniões foram tão infrutíferas quanto a aposta da Microsoft no mercado de telemóveis dobráveis com o Suraface Duo. Mas as fotos como esta, de Tim Cook com cara de poucos amigos ao lado de Trump, ficaram eternizadas.

Apesar do meu evidente desdém por toda a situação da época, uma coisa é irrefutável. Aquelas reuniões marcaram o início de uma mudança gigantesca no mercado da tecnologia: o fim do passe livre para as empresas fazerem o que elas quiserem, sem oferecer uma contrapartida para o sistema do qual elas tanto se aproveitam.

Na realidade, ocorre-me que essa mudança começou um pouco antes, logo no início da presidência de Trump. Na sua cruzada pela imagem de um Verdadeiro Patriota, Trump conseguiu uma das maiores conquistas palpáveis da sua presidência. Obrigar as empresas de tecnologia a repatriarem o dinheiro que, após diversas (e diversas, e diversas, e diversas) manobras legais, guardavam em paraísos fiscais e longe dos dedos do fisco americano. Em 2017, elas haviam repatriado “apenas” US$ 155,1 milhões. Em 2018, foram US$ 664,9 milhões. Um belo aumento, e um feito que outros presidentes americanos tentaram, mas não conseguiram conquistar.

Pois bem. De lá para cá, os departamentos de investigação dos Estados Unidos e da Europa passaram a analisar mais de perto as aquisições e a legalidade das práticas anticompetitivas das gigantes americanas, o mercado de redes sociais passou por uma estremecedora correção de perceção pública em meio a polémicas envolvendo democracia e saúde pública, e uma palavra entrou de uma vez por todas no léxico coletivo quando o assunto são todas essas empresas: responsabilidade.

Responsabilidade fiscal, responsabilidade social, responsabilidade ambiental, responsabilidade.

O que me traz a esta semana, com a nova reunião convocada pela Casa Branca, agora sob o comando de Joe Biden. Na agenda, a responsabilidade das empresas do setor de tecnologia em relação à infraestrutura de cibersegurança. Segundo o Washington Post, Biden disse que “As partes mais essenciais da nossa infraestrutura são operadas pelo setor privado” e, por isso, as empresas “têm a capacidade e a responsabilidade para elevar o nível da cibersegurança”.

Em essência, a mensagem é: já que vocês se aproveitam tanto dos buracos no setor financeiro para burlar, legalmente, o pagamento de impostos (sabem quanto a Amazon pagou de impostos nos EUA em 2018 e 2018? Zero dólares), que tal reinvestir um pouco deste dinheiro nesse mesmo sistema que vos deixou todos ricos?

Ao sinalizar esta mudança, ou melhor, a continuidade desta mudança de atitude que começou de uma forma bastante estabanada com Trump, o governo americano deixa claro que acabou a época de apenas beber da fonte de forma ilimitada e sem qualquer contrapartida. Daqui para frente, haverá um custo (que podemos considerar um eufemismo com o termo “reinvestimento”) para aproveitar as liberdades proporcionadas pela terra da oportunidade, onde todos são iguais. Mas alguns são mais iguais do que outros.

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