Crónica

O novo desafio das redes sociais

Marcus Mendes
13 de Nov de 2021
2 minutos de leitura

Quem costuma acompanha o desempenho das empresas de tecnologia no mercado financeiro deve ter notado uma constante no preço das redes sociais: todas elas despencaram após a divulgação recente de seus respectivos resultados financeiros.

Tudo começou com a divulgação dos resultados da Snap, em 21/10 (bem, na verdade tudo começou na WWDC de 2020, mas eu já falo sobre isso). Nesta divulgação, a Snap reportou um faturamento US$ 300.000.000,00 abaixo do esperado, e disse que isso aconteceu como resultado da função App Tracking Transparency (ATT) do iOS, que agora permite que os usuários permitam ou não serem rastreados para fins publicitários.

Após a divulgação desses resultados, as ações da Snap despencaram 25% na NYSE. Imediatamente, as ações do Twitter e do Facebook caíram 5%. Isso aconteceu porque o mercado supôs que essas empresas seriam impactadas da mesma forma pelo aumento da privacidade do iOS, o que acabou se provando verdade nos relatórios financeiros que elas também divulgaram dias depois.

No momento em que escrevo este texto, desde 21/10, a Snap perdeu 27% de seu valor de mercado, o Twitter desvalorizou 20%, e o Facebook chegou a perdeu 8%, mas conseguiu se recuperar um pouco e está em baixa de apenas 3% (o que ainda assim significa uma fortuna em termos práticos).

Mas afinal, o por que o aumento da privacidade no iOS está reduzindo o faturamento dessas empresas? Em suma, ao dificultar o rastreamento dos usuários, as redes sociais deixam de conseguir exibir publicidade direcionada. Fica mais difícil de direcionar um anúncio de pet shop especificamente para o jovem João de 16 anos, que mora no bairro de São Vicente em Lisboa, que acabou de adotar um cachorro, e que pode se interessar pela possibilidade de comprar roupinhas quentes para o conforto do novo cãozinho durante o inverno que vem pela frente.

Com a dificuldade em exibir anúncios com este nível de direcionamento, as empresas reduzem seus investimentos em publicidade digital, e isso obviamente corta o faturamento e o lucro das redes sociais que gradualmente foram adaptando seus modelos de negócios e tornaram-se completamente dependentes justamente dessa possibilidade.

Possibilidade essa, inclusive, que sempre foi bastante questionada por organizações e por pessoas mais atentas às questões de proteção da privacidade. Possibilidade essa, inclusive, que motivou justamente o advento do ATT.

Mas, o que isso significa para o futuro das redes sociais? Bem, este certamente é um momento importantíssimo para esse mercado, pois o futuro é incerto para todas essas empresas. A partir de agora, elas não poderão mais contar com práticas que beiram a imoralidade para ter seu ganha-pão. Esse novo cenário significa que cada rede social terá que buscar novas formas de continuar faturando alto, sem que isso signifique necessariamente a violação da privacidade de seus clientes mais fiéis. Significa que, pela primeira vez, o mercado de redes sociais será obrigado pelos investidores a seguir faturando alto, ao mesmo tempo que será obrigado por todo o resto do mundo a fazer a coisa certa.

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