Crónica

Relatório de Opacidade

Crónica semanal de Tecnologia. Aos sábados, às 12h.

Marcus Mendes
21 de Ago de 2021
2 minutos de leitura

Quando o assunto é o Facebook, não é exatamente nenhum segredo que o meu respeito pela empresa é… bem… nulo. Mas isso é apenas a consequência do respeito do Facebook pelos seus utilizadores ser igualmente nulo. Um exemplo disso veio nos últimos dias, quando o Facebook publicou um dito relatório de transparência sobre os conteúdos que mais envolveram o público americano no último ano.

Repleto de tabelas e gráficos, este relatório foi compilado e publicado com um objetivo muito claro: utilizar dados concretos para isentar o Facebook da parcela de responsabilidade que ele carrega pela desinformação que levou à morte de milhões de pessoas pela COVID-19, e também da responsabilidade (ainda maior) que ele carrega pelo processo de colapso da democracia mundial.

Quem acompanha de perto as notícias e os bastidores do Facebook sabe que eles são bastante hábeis na arte da esquiva. É comum, em qualquer comunicação da empresa sobre os problemas que ela causa, apontar o dedo para a concorrência com argumentos do tipo “Mas o Twitter faz a mesma coisa, e ninguém reclama”, ou então para terceiros, com argumentos do tipo “Culpados, nós? Não! A culpa é do Aleksandr Kogan!”.

E as esquivas não param por aí. Num depoimento recente ao Governo dos EUA para se defender da acusação de monopólio sobre o mercado de redes sociais, Mark Zuckerberg chegou a listar o iMessage como um dos principais concorrentes da empresa dele e, por isso, não tinha como o Facebook ser um monopólio. O iMessage!

O que me traz ao relatório publicado nesta última semana. Indo além dos gráficos, além das tabelas e além dos textos cuidadosamente construídos para argumentar que toda a desinformação que passa pelo Facebook é originada, na realidade, de outros lugares, o documento representa (nas palavras de Sir Arthur Conan Doyle) um enorme exercício em futilidade para quem quiser tirar algo de realmente valioso dali.

Cirurgicamente impreciso, o Facebook listou o YouTube como o domínio mais listado nas publicações dos americanos. Eram vídeos de cachorrinhos? Eram vídeos de Charlie mordendo o dedo do irmão? Eram vídeos defendendo a teoria de que a vacina contra a Covid-19 é uma conspiração da esquerda liberal para controlar a humanidade com chips 5G e cercear as liberdades constitucionais da população conservadora? Nunca saberemos. YouTube. Isso é tudo o que está lá.

Estes comportamentos  repetem-se noutras categorias. Ao elencar os 20 posts mais visualizados por americanos ao longo de 2020, o retrato que se forma é de um Facebook agradável, leve e livre de abuso ou desinformação. Mas o Facebook sabe, eu sei, e você também sabe, que o problema não reside nos 20 posts mais visualizado. Ele reside nos milhões de posts menos visualizados, mas que juntos formam o grosso do esgoto que corre pelas veias da Big Blue. Este é o real perigo, e algo que o relatório falha miseravelmente (de propósito, é claro) em retratar.

O timing da disponibilização deste relatório não foi casual. Após ter sido rejeitado pela Justiça americana há algumas semanas, o processo que o FTC quer abrir contra o Facebook está prestes a ser reapresentado e, muito provavelmente, aceite desta vez. Além disso, nesta última semana, o WhatsApp (por sua criptografia) foi apontado como uma das principais ferramentas utilizadas pelo Talibã para assumir o controlo do Afeganistão. Ao publicar o relatório de transparência mais opaco dos últimos anos, o Facebook mostrou, mais uma vez, que sabe que, em momentos de crise, tudo o que ele precisa fazer é apontar o dedo para fora (“Desinformação aqui? Não! Ela vem do YouTube!”), distrair o mercado com algo (“Veja que divertida esta lista de posts!”), e esperar até que a inevitável próxima grande polémica envolvendo a rede tome os holofotes para que ele possa reiniciar este processo.

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