Crónica

Twitter, Pedágios, e a Fuga de Zuckcity

Crónica semanal de Tecnologia. Aos sábados, às 12h.

Marcus Mendes
11 de Set de 2021
3 minutos de leitura

Nesta semana, o Twitter lançou um teste interessante, que é uma das maiores fugas à dinâmica original do Twitter (e mantida até hoje): Comunidades. A ideia é que os usuários criem e gerenciem grupos de discussão e compartilhamento de conteúdo de acordo com regras e temas específicos, também definidos por eles próprios. De acordo com um executivo da empresa, a participação de comunidades tem um efeito bastante positivo: faz com que as pessoas se sintam mais conectadas à plataforma e, por consequência, aumentem a participação de forma positiva contribuindo para um saldo cada vez mais positivo do que é coletivamente postado por lá.

Pensando nessa novidade, ocorreu-me a impressão de que na concorrência entre as redes sociais, o Twitter está a virar o Facebook mais rápido do que o Facebook está a virar o Twitter. E não há nada de errado com isso.

Explico: desde os primórdios da era moderna das redes sociais, o Twitter sempre teve uma vantagem gigantesca que, por algum motivo, o Facebook nunca conseguiu copiar. A vantagem do imediatismo, consolidada em definitivo com este tweet histórico:

E por que este tweet é histórico? Em suma, esta foi a primeira vez que um tweet foi bem mais rápido do que a imprensa tradicional para reportar um evento de grandes proporções. (Indo além, esta matéria explica bem a importância desse episódio.)

Deste ponto em diante, o Twitter passou a ser encarado como a rede social do AGORA, algo que o Facebook nunca conseguiu reproduzir. Imagino que seja por conta da estrutura do Twitter, que até hoje é bem mais simples do que o Facebook. Penso no Twitter como uma avenida de mão única e apenas uma faixa. Todos os carros passam por ali, e podes utilizar a ferramenta de busca para ver exatamente todos os carros que já passaram por ali desde 2006. (Na verdade, dá para dizer que são duas faixas, sendo a segunda um túnel que abriga os tweets de perfis fechados. Mas não quero levar esta analogia longe demais).

Em contrapartida, o Facebook é uma cidade com ruas, avenidas, casas, prédios, estações de comboio e de metro, etc. A dinâmica descentralizada de publicação de conteúdo do Facebook não favorece a publicação e, principalmente, a rápida identificação e espalhamento de eventos se desdobrando em tempo real.

E olha que o Facebook tentou. Facebook Live e Facebook Stories, por exemplo, foram duas tentativas de atrair o público interessado na geração e no consumo de conteúdos se desdobrando em tempo real. Ma a iniciativa nunca deu muito certo, já que ainda assim isso é apenas uma das dezenas de funcionalidades diferentes do site, todas elas sob interferência de um misterioso algoritmo pesado que escolhe o que as pessoas devem ver.

Pois bem. E o Twitter? Eu não sei você, mas vejo o Twitter como uma espécie de mascote do mundo das redes sociais. Na verdade, acho que Wall Street também vê assim, já que o valor de mercado do Twitter representa apenas 4% do valor de mercado do Facebook. Mas é justamente aí que mora o principal trunfo da rede social de Jack Dorsey. O Twitter passou 14 anos a estabelecer-se como a rede do agora, e passou o último ano (e especialmente os últimos seis meses) investigando como valer-se dessa enorme vantagem para expandir lateralmente a sua oferta de produtos. E Wall Street está a tomar nota. Apesar de diminuto comparado ao Facebook, o valor de mercado do Twitter cresceu 50% no último ano. Comparado com o crescimento de 38% do Facebook no mesmo período, dá para ver como o Twitter parece ter um futuro mais promissor do que a rede de Mark Zuckerberg dentro e fora de Wall Street.

O que me traz de volta ao lançamento dessa última semana. Ao justificar o lançamento das Comunidades como uma forma de fidelizar ainda mais os utilizadores do Twitter, a empresa mostra que está a identificar, gradualmente, a forma certa de potencializar todas as outras iniciativas rentáveis que vem a anunciar. É o início da construção de uma segunda via nessa estrada que, ao que tudo indica, estará repleta de motoristas satisfeitos com o preço da portagem. Tudo isso bem longe da megalópole de Mark Zuckerberg que, a cada dia que passa, mais parece uma Gotham City controlada pelos fugitivos de Arkham.

Não percas pitada do UPDATED!

Assina a nossa newsletter para receberes as últimas novidades de Tecnologia diretamente na tua caixa de entrada.

Oops! There was an error sending the email, please try again.

Awesome! Now check your inbox and click the link to confirm your subscription.