Crónica

Uma profecia de 4 décadas

Crónica semanal de Tecnologia. Aos sábados, às 12h.

Marcus Mendes
23 de Out de 2021
3 minutos de leitura

Apple, Google, Samsung, Huawei, Oppo, Amazon. O que estas empresas têm em comum? Ok, muitas coisas. Essa não foi uma boa charada. Mas dentre todas essas coisas que elas têm em comum, uma das mais curiosas é o fato de todas elas oferecerem produtos com um processador próprio, ao invés de chips Intel ou Qualcomm que até pouquíssimo tempo atrás dominavam o mercado.

Pensando no mercado de telefones, parece-me que a Apple e a Samsung foram as primeiras a indicar que tomariam este caminho. No caso da Apple, em 2010, ela fez isso com o chip A4 no iPhone 4s. No caso da Samsung, também em 2010, ela fez isso com o chip Hummingbird (posteriormente rebatizado de Exynos 3 Single) no Galaxy S. O fato de que a Samsung foi incumbida de fabricar o chip A4 da Apple parece-me indicar que, se não fosse pela Apple, a Samsung dificilmente teria dado esse passo em 2010, mas podemos explorar este assunto em noutro momento. Fato é que em 2010 começava o longo caminho que levaria a Intel e a Qualcomm a tornarem-se quase irrelevantes nos mercados que elas chegaram a dominar.

E esta mudança só acelerou nos últimos anos. O desempenho sem igual dos processadores dos iPhones (que consistentemente deixam muito para trás os da concorrência em aparelhos lançados no mesmo ano) deu à Apple a confiança e o know-how para fazer os chips dos próprios Macs, e o resultado é o que vimos na última semana. Valendo-se do sucesso absoluto do chip M1, a Apple anunciou o M1 Max e M1 Pro (ugh…) que, incrivelmente, ultrapassam em muito o desempenho do M1 que já era surreal. No dia seguinte, foi a vez da Google detalhar o Tensor, processador feito sob medida para a nova geração dos telefones Pixel 6. No mesmo dia, a Oppo anunciou que tinha planos de fazer os próprios processadores para os próprios telefones, e neste meio do caminho a Huawei vem, há anos, fazendo a linha Kirin de processadores, e a Amazon passou a usar chips feitos em casa nos seus data centeres e alguns produtos de bem de consumo.

É claro que diferentes iniciativas terão diferentes graus de sucesso. Fazer bons processadores (e especialmente chips que incluam boas GPUs) ainda é um desafio enorme, que requer muito dinheiro e uma equipa muito experiente e,, por isso, é natural que nem todas essas iniciativas tomem o caminho que as empresas almejam. Mas, ainda assim, não é nenhum mistério o motivo pelo qual a Intel e a Qualcomm tenham perdido 20% de valor de mercado cada, desde a sua alta histórica até hoje. O caso da Intel é ainda mais triste, porque ela teve absolutamente tudo em seu favor para reinar eternamente no campo de processadores para portáteis (depois de ter perdido a oportunidade de fazer bonito também no mercado de smartphones). Mas o conforto na cadeira de líder fez a empresa ficar insensível ao tsunami da mudança que só agora ela começa a compreender. Na última semana, o novo CEO da Intel deu uma entrevista em que basicamente admitiu que a empresa está em apuros, e mostrou nas entrelinhas que ele não tem a menor ideia de como fará para retomar o prumo. Já a Qualcomm parece segura, por enquanto, como a fornecedora de processadores para a imensidão de telefones intermediários que sequer justificariam o investimento de terem processadores próprios.

Não podemos nos esquecer, é claro, que tudo isso acontece justamente num momento sem precedentes no mercado de semicondutores, em que simplesmente não há vazão de fabricação suficiente para abastecer a demanda do planeta. E talvez seja exatamente por isso que todo o mundo esteja a tomar para si a tarefa de desenvolver os próprios processadores.

Em 1982, Alan Kay disse a célebre frase “pessoas que levam software sério deveriam fazer o próprio hardware também”. Quase 40 anos depois, essa frase nunca pareceu tão profética.

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