Crónica

USB-Fail

Crónica semanal de Tecnologia. Aos sábados, às 12h.

Marcus Mendes
25 de Set de 2021
3 minutos de leitura

Nesta semana, em suma, a Comissão Europeia apresentou um projeto de lei que quer padronizar a tecnologia USB-C como a entrada oficial de conexão de todos os smartphones vendidos na Europa. A apresentação desse projeto de lei não foi uma grande surpresa, já que essa é uma história que vem dado que falar há aproximadamente uma década, mas dessa vez parece que o assunto será levado à frente com mais seriedade do que em todos as outras oportunidades somadas.

De acordo com a Comissão, esta padronização será positiva em múltiplas frentes: primeiro, a quantidade de lixo eletrónico gerado como resultado da troca de smartphones será reduzida. Ao comprar num novo telefone com o mesmo conector do antigo, independente do modelo, fabricante ou geração, o utilizador poderá manter os mesmos cabos ao invés de descartá-los para comprar cabos novos, compatíveis apenas com o novo aparelho. Este, aliás, também é parcialmente o segundo argumento. Ao manter a conectividade, a vida de todos os consumidores ficará mais fácil e a migração para o novo dispositivo, mais cómoda.

Eu entendo a boa intenção de ambos argumentos, mas vejo ambos como argumentos bastante vazios. Acho que iniciativas mais abrangentes e mais ambiciosas, como por exemplo envolvendo o Direito de Reparar, teriam resultados muito mais satisfatórios e eficientes para ambas situações apresentadas no projeto de lei. Ademais, este é o tipo de medida perfeito para simbolizar como uma falta de conhecimento técnico pode prejudicar o mercado no longo prazo.

E para defender o meu ponto, voltemos um pouco no tempo. Imagine-se, nos anos 80, ou na primeira metade dos anos 90, uma lei parecida com essa tivesse sido aprovada. Suponhamos que, em meio a diferentes protocolos de conectividade e a infinidade de opções que já existia na época, tivesse sido aprovada uma lei padronizando o conector DB-25 como a porta oficial para alguns tipos de conectividade. Ou, talvez, para todos. Será que as empresas teriam tido incentivo suficiente para investir em novas tecnologias como, por exemplo, a USB que foi lançada apenas em 1996?

Especificamente sobre a Apple, lembro-me de todo o caos que foi gerado quando a Apple anunciou que abandonaria o conector de 30 pinos em favor do conector Lightning. As críticas, inclusive, foram muito parecidas com as de hoje em dia. Lixo eletrónico, desconforto, fragmentação, etc. Mas não estamos num lugar muito mais confortável hoje em dia? A adoção da porta Lightning nos iPhones viabilizou o desenvolvimento de tecnologias como o Touch ID, Haptic Touch, e muitas outras que só existem porque de um momento para outro, o iPhone passou a ter mais espaço interno disponível.

E é claro que particularmente o lixo eletrónico é uma questão importante e que não pode de forma alguma ser relevada ou minimizada. Mas aí eu volto ao meu argumento anterior. Investir em leis sobre o Direito de Reparar não seria muito mais eficiente para impedir no curto, médio ou longo prazo o acúmulo de lixo eletrónico na natureza?

No fim das contas, apesar da União Europeia sempre ter sido incrivelmente eficiente na tarefa de aprovar leis que, apesar de incómodas para as empresas, foram de fato benéficas para a população, não vejo esta situação se repetindo aqui. Padronizar uma tecnologia crucial de conectividade numa linha de produtos cujas evoluções técnicas acontecem todos os dias parece-me um plano bastante míope.

Por outro lado, parece-me que talvez esta lei, caso seja aprovada, poderá de fato determinar o fim do cabo Lightning nos iPhones. Mas não do jeito que a Comissão Europeia espera. Não é segredo para ninguém como a Apple vem a investir em tecnologias de carregamento sem fio, tendo o MagSafe para iPhone como o exemplo mais recente. Pode ser, sim, que esta lei incentive a Apple a acelerar o processo de substituição do iPhone, e faça da Europa a primeira região do mundo que terá um iPhone completamente sem entrada de conectividade física. Para desespero dos programadores.

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